um pouco do que me interessa

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Trapézio no inverno



Alô!Como você está?
Ausente- disse ela


acho que lá dentro sinto-me aliviada de os "amores"rancorosos nunca lerem o que aqui escrevo
dizem eles:nunca mais te leio!
e eles saem com o queixo imponente e o coração seco
tudo bem
não leiam
creio que tudo que sinto ou senti já é um tanto claro
comigo não há meia verdade,mas sim uma verdade inteira

onde eu estava no outro ano?
nessa hora?

com uma mentira com certeza eu era acompanhada

creio que com o mesmo ventinho de inverno
mas agora sem pé no outro pé

e dai...foda-se.é esse vento do quase inverno,a sensação de não estar morando na mesma cidade,de tudo ser três quadras,do supermercado perder a novidade,da cama que me chama,tudo isso faz eu ser a nostálgica demais.mas uma nostalgia mal pensada,não querendo ser sentida

dos questionamentos deixados no trapézio

Você prometeu que estaria no outro trapézio quando eu soltasse o meu, não prometeu? Por isso, eu balançava de olhos fechados. Sem medo. Por isso, eu ficava de cabeça para baixo, nesse pedaço de madeira, suspenso por duas cordas. Você garantiu que me seguraria pelos dois punhos e me levaria para o outro lado. Que haveria alguém no fim do meu salto. Você juntou os pés e jurou que não me deixaria cair desse número sem rede. Com a cara no picadeiro. Foi por acreditar em você que gasto mais uma das minhas vidas. Morro mais uma vez, pela sua ausência. Aos poucos. Desde aquele dia.

Enquanto você me desejava uma coisa, eu já sentia outra. Eu salivava um amargo, que se espalhava pela boca, enquanto você falava, parado em frente à porta. Depois daquela tarde, o gosto ruim nunca mais desapareceu. Meus cafés nunca mais se adoçaram. Minha comida se tornou indigesta. Desde aquele dia, poucas garfadas. Nada de água por causa do amargo misturado à sua insipidez. Depois daquela tarde - outono, eu me lembro, pelas folhas secas que via da janela, espalhadas pela calçada - fui enganado por maçãs que me seduziram pelo seu vermelho. Por morangos. Pêras. Por mangas suculentas, que, na primeira mordida, ganharam o gosto áspero da minha boca. Se transformaram em pedaços cuspidos no chão da sala. Naquela tarde, enquanto você me desejava uma coisa, eu já sentia outra. O frio subia pelas minhas costas. Cubo de gelo desenhando minha coluna. A casa ficou fria. Inteira. Todos os cômodos. Os pêlos dos braços nunca mais se deitaram. Os cobertores nunca mais me esquentaram. A cama vazia, toda noite, me congela mais um pouco. Desde aquela tarde. Eu vejo vultos. Ouço passos. Escuto vozes. Enxergo folhas secas, pela calçada, mesmo quando não é outono. Mudanças, que começaram antes mesmo da porta ser fechada. Enquanto você falava. Ainda enquanto me desejava uma coisa e eu sentia outra. Mudanças que começaram quando você me dizia que eu ia ficar bem. Eu acreditei. Por alguns minutos.

2 comentários:

Emanuele ;@ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Emanuele ;@ disse...

Gostei mto desse post, parabéns :D

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